Nenhum livro tem uma biografia como a da Bíblia. Escrita ao longo de aproximadamente 1.500 anos, por cerca de 40 autores, em três línguas e três continentes, ela atravessou impérios, fogueiras e revoluções — e chegou ao seu celular. Esta é a história, em capítulos.
As línguas originais
O Antigo Testamento foi escrito majoritariamente em hebraico, com trechos em aramaico (partes de Daniel e Esdras). O Novo Testamento foi escrito em grego koiné — o grego popular falado em todo o Mediterrâneo do século I, escolha que espalhou a mensagem na língua mais universal da época.
Dos rolos aos códices
Os primeiros textos eram copiados à mão em rolos de papiro e pergaminho. Os escribas judeus — depois os massoretas — desenvolveram um rigor de cópia lendário: contavam letras, palavras e linhas de cada rolo para detectar qualquer desvio. Em 1947, a descoberta dos Manuscritos do Mar Morto em Qumran provou o resultado: um rolo de Isaías mil anos mais antigo que os manuscritos então conhecidos apresentava o texto essencialmente idêntico.
Nos primeiros séculos da era cristã, a igreja adotou o códice — o formato de livro com páginas — e nos legou tesouros como o Códice Sinaítico e o Vaticano (século IV), Bíblias gregas quase completas que ainda existem.
Quem definiu quais livros entrariam?
O chamado cânon (do grego "régua, medida") não foi inventado por um decreto — foi um reconhecimento gradual. Os livros do Antigo Testamento já eram lidos como Escritura por Israel séculos antes de Cristo; Jesus os citava como autoridade final. No Novo Testamento, os critérios das primeiras comunidades foram a origem apostólica, a coerência doutrinária e o uso universal nas igrejas. Listas como o Fragmento Muratori (c. 170 d.C.) mostram o essencial do cânon já reconhecido muito cedo; os concílios posteriores confirmaram o consenso, não o criaram.
A era das traduções
A Bíblia nasceu traduzível — e traduzida. A Septuaginta verteu o Antigo Testamento para o grego já no século III a.C. A Vulgata de Jerônimo (século IV) levou tudo ao latim e reinou por mil anos. Em 1455, a Bíblia de Gutenberg inaugurou a imprensa ocidental — o primeiro grande livro impresso da história foi, justamente, este. A Reforma acelerou tudo: Lutero em alemão (1522-1534), Tyndale em inglês, e o pastor português João Ferreira de Almeida, que iniciou no século XVII a tradução que domina o mundo lusófono até hoje — conheça essa história no nosso guia de traduções.
A Bíblia hoje
Segundo as sociedades bíblicas, a Bíblia completa já foi traduzida para mais de 700 línguas — e porções dela, para mais de 3.500. É, com folga, o livro mais distribuído da história, com estimativas que ultrapassam 5 bilhões de exemplares. Do rolo de couro ao aplicativo, o suporte mudou muitas vezes; o texto, guardado com zelo de escriba, segue dizendo o que sempre disse: "a palavra de nosso Deus subsiste eternamente" (Isaías 40:8).